
Na histórica edição número um da Syve Brasil, Isabel Fillardis traduz a força da sua essência em imagens que desafiam o tempo e redefinem o significado de um legado reproduzido com soberania.
A moda deu a Isabel Fillardis os primeiros holofotes, mas foi a sua essência múltipla e indomável que a consagrou como um farol de resistência na cultura brasileira. Prestes a completar mais um capítulo de sua história, a atriz, cantora e produtora ocupa as páginas da Syve em um ensaio poético clicado por Pino Gomes, onde reflete sobre o preço do pioneirismo, a retomada da autoestima e o amor atípico que redefiniu seu mundo.
Nossa edição de estreia defende que a identidade é um movimento constante. Você começou como modelo, consagrou-se como atriz e hoje brilha como cantora. Como tem sido sustentar o direito de ser múltipla em um mercado que historicamente tenta rotular e limitar corpos pretos? Acho que a pergunta é como tem sido para você, né? Acho que não é como foi, porque eu comecei já a multiplicar aos 18 anos como cantora e como atriz, estreando na novela Renascer e, ao mesmo tempo, com o grupo As Sublimes, isso em 1993. Ao longo dessa minha carreira, da minha caminhada, eu fui me tornando cada vez mais múltipla mediante as oportunidades que a vida foi me trazendo e me mostrando. E eu, dentro da minha singela ousadia, eu diria, fui ocupando esses espaços, né? Como apresentadora, escritora, e agora figurinista, enfim, tantas outras coisas que eu venho aprendendo, desenvolvendo e colocando em prática como produtora cultural, e por aí vai. Então, assim, eu venho sendo múltipla num mercado que tende a querer colocar pessoas pretas só em alguns tipos ou determinados papéis. Eu acredito que o fato… No início, tudo bem, eu de fato recuei da música pelo fato de ter sido um pouco criticada, mas depois eu retomei isso fazendo teatro musical e, antes da pandemia, retomando a carreira solo como cantora. Eu atribuo isso a resistir e continuar simplesmente assim. Não dar ouvidos a essas negativas, né? O não a gente sempre tem. Eu sempre fui e vou atrás do sim. Diariamente na minha vida.

Muito se diz na moda e nas artes que o verdadeiro legado está em usar a visibilidade para transformar realidades. Em que momento da sua jornada você percebeu que a sua presença na tela e nos palcos havia virado um farol e um espelho para tantas outras mulheres? Eu posso dizer que essa questão de construir um legado, de ser um espelho para outras mulheres, na época meninas, hoje mulheres, e a partir de agora outras meninas e mulheres, enfim, eu tenho para mim que é, primeiro, a minha conexão espiritual em saber que o dar e receber é uma via de mão dupla. Eu percebi através da espiritualidade, através da minha consciência espiritual, de que eu estava recebendo e eu gostaria de contribuir e retribuir aquilo tudo que eu estava recebendo: aquele espaço, aquela voz, a prosperidade em si, o trabalho, enfim. Comecei a emprestar minha imagem para várias campanhas institucionais, para o câncer, o coração, enfim, fui doando a minha imagem. Depois comecei a trabalhar no terceiro setor efetivamente, e a consciência de que fui e sou espelho para muitas mulheres demorou um pouco para vir. Conscientemente, eu diria, porque eu acho que a internet, na verdade, é que ajudou a trazer esse esclarecimento, a trazer isso à tona. Eu sou do tempo analógico, do tempo que o artista não tinha muito acesso ao público e o público não tinha muito acesso ao artista, exceto durante shows e teatro. Fora isso, não havia essa possibilidade. A internet trouxe essa proximidade e trouxe essa voz principalmente para a população negra. Não tem tanto tempo que eu entendi ser espelho, farol, motivo de inspiração para muitas mulheres.
Sendo mais precisa ainda, eu acredito que no momento em que eu comecei a me dedicar aos meus projetos, aos projetos institucionais que eu fundei, tanto a Força do Bem quanto a Doe o seu Lixo, ali eu entendi parte do legado que eu já estava construindo. Isso me possibilitava bater em algumas portas, essas portas serem abertas, falar com veículos de comunicação, e os veículos quererem ouvir, quererem saber a minha opinião ou quererem ouvir o que eu estava querendo dizer a respeito de algumas pautas sociais muito importantes para o Brasil. Então, eu acredito que por volta de 2001 acho que foi um ano marcante para isso.
Ser uma das pioneiras na teledramaturgia brasileira dos anos 1990 exigiu muita força. O racismo estrutural tenta, sutil ou brutalmente, silenciar mulheres negras. Que ferramentas internas você ativou naquela época para que o preconceito não limitasse os seus sonhos? Na época em que eu comecei a trabalhar na teledramaturgia, eu não tinha consciência do racismo em si. Eu era muito jovem e isso não era uma pauta dentro da minha casa, por exemplo. Ao longo dos anos, conforme a maturidade foi chegando, é que isso foi ficando cada vez mais latente, consciente, onde eu pude, com o tempo, ir me aprofundando nesse assunto, visualizando e vivenciando momentos racistas comigo, contra mim, de forma sutil e estrutural, como ele geralmente é, mas eu já ali perceptiva a essas ações. E tentando, de uma forma elegante, mas muito contundente, incisiva, me colocar e não permitir que eu fosse atacada, vamos dizer assim.
Eu diria que a maior ferramenta que eu utilizei, que eu utilizo na minha vida, é acreditar em quem eu sou, naquilo que eu quero fazer, olhar de frente para os meus objetivos, para os meus sonhos, sem colocar o racismo na minha frente. Eu já sei que o racismo existe, eu sei que ele está lá, mas eu não o coloco na minha frente. Eu não deixo ele ser maior do que a minha vontade, do que a minha vontade de realizar, a minha vontade de ganhar espaços. Eu não permito que isso aconteça. Então, eu acredito que a maior ferramenta foi a autoestima que eu recebi, principalmente da minha mãe, que nunca colocou o racismo como um empecilho na minha vida, sempre trabalhou a minha autoestima o tempo inteiro. Então, acho que essa foi a ferramenta maior que eu tive e tenho até hoje.


Eu já sei que o racismo existe, ele está lá, mas eu não o coloco na minha frente. Não deixo ele ser maior do que a minha VONTADE de REALIZAR e de GANHAR ESPAÇOS” — Isabel Fillardis
Se você pudesse sentar hoje com a jovem Isabel que estava estreando na televisão lá atrás, o que sussurraria no ouvido dela sobre o preço e o valor inestimável de ser uma precursora? Eu diria: “Querida Isabel, sua jornada não vai ser fácil, mas ela vai ser incrivelmente recompensadora. Você vai ter momentos em que você talvez queira desistir, mas vão ter pessoas e outros momentos que vão te dar combustível para você seguir em frente. E quando você chegar mais um pouquinho à frente, você vai ter a certeza e vai ver a felicidade diante dos seus olhos. Confia”.
O teatro possui uma crueza única: não há cortes, não há edição, é a verdade em estado puro diante do público. O seu novo espetáculo, “O Começo do Fim”, traz uma densidade artística muito forte. O que essa peça expõe sobre as suas próprias metamorfoses e como tem sido esse reencontro com a sua essência artística neste momento de maturidade?
O teatro é o maior exercício que o artista pode ter. É ali que ele se encontra com a sua real arte, com a sua forma mais genuína, potente e profunda de ser ator. Não tendo cortes, não tendo edição, é o sentimento todo ali, à flor da pele diante do público. E é maravilhoso esse exercício, é maravilhoso estar em cena. É maravilhoso estar em cena na maturidade, sobretudo quando você escolhe o caminho que você quer seguir, quando você escolhe os temas e os assuntos que você quer abordar para poder se comunicar com a sociedade, afetar essa sociedade e, através da arte E educação, transformar. O ofício do artista, né? Então, O Começo do Fim mexe comigo, não só comigo, mas com o meu parceiro, meu noivo, o Well Aguiar também. Esse texto nos escolheu e ele nos atravessou durante todo o processo criativo dele, né? Somos um casal interracial, assim como o casal do espetáculo. Acredito que a maior convergência é aí. Em outros pontos não, em outros pontos são pessoas completamente diferentes, que vivenciam uma história difícil, uma história muito forte, principalmente com esse filho, né? Esse filho, fruto desse casal interracial, que está precisando de ajuda. Então, é uma peça que fala de dilemas, de encontros, desencontros. Fala de relações, educação, racismo estrutural… tudo aquilo que hoje nós dois queremos falar e queremos trazer à tona da sociedade. E essa conversa com o público ganha ainda mais força agora: logo após a nossa temporada no Rio, iniciaremos em agosto uma turnê nacional, levando esse debate e essa entrega artística para São Luís, João Pessoa, Recife, Brasília, São Paulo e Belém. É o teatro cumprindo o seu papel de pontes e afetos pelo país.

O título da peça provoca uma reflexão profunda sobre ciclos. Para a Isabel mulher, hoje, o que de fato precisou chegar ao “fim” para que este “começo” na revista e nos palcos fosse tão soberano e autêntico? Para a Isabel mulher, foi todo um apanhado e toda uma retomada de autoestima. Mediante os ciclos e términos que eu vivi na minha vida pessoal, fez com que eu fosse buscar uma Isabel que ficou lá atrás e trazê-la à tona. Na medida em que isso aconteceu, as outras coisas foram se desencadeando por si sós. A maturidade traz esse privilégio de você poder estar onde você quer estar.
Foi necessário entender que, no Brasil principalmente, é importante que o artista saiba se produzir, por exemplo; é importante que o artista faça outras atividades para além da dramaturgia na televisão, por exemplo; é importante que o artista tenha um conhecimento, minimamente, de quais são as leis de incentivo para que possam ser produzidas outras coisas em prol de si mesmo ou em prol de outros. A Isabel foi descobrindo que ela pode e poderia traçar outros caminhos e não depender de uma televisão para existir ou para coexistir no mundo da arte. Eu desenvolvi, vamos dizer assim, olhares, ampliei o meu olhar artístico e pude criar essas prateleiras e plataformas de arte e entretenimento dentro da minha jornada.
A maternidade redefine prioridades. O que os desafios diários com os seus filhos te ensinaram sobre afeto e resiliência que nenhum roteiro ou prêmio de prestígio foi capaz de traduzir? Eu digo sempre que ser mãe não é para qualquer uma. Ser mãe não é para qualquer mulher. É um ato de amor incondicional que nasce, de fato, a partir do momento em que você coloca esse ser no mundo. Sua vida vai mudar, seu olhar vai mudar, suas prioridades vão mudar. Sua vida social vai mudar, sua vida profissional também vai ser impactada por essa maternidade. O que não pode acontecer, e que os meus filhos me ensinam, é que você não pode parar. De alguma forma, você precisa retomar o caminho dos seus sonhos se tornando mãe. Há um equívoco, eu diria — não vou dizer equívoco —, mas na grande maioria das vezes, o que eu vi de frustrações em olhares de mulheres que não conseguiram retomar suas carreiras, que não conseguiram retomar seus sonhos pelo fato de terem se tornado mães, é gigantesco. E essa é uma grande questão que precisa ser bem vista, bem analisada e bem cuidada pela sociedade, pelo mercado privado, por exemplo, na questão do retorno dessa mulher para o mercado de trabalho. A jornada dela é muito alta, a responsabilidade também, mesmo sabendo que ela pode ter um parceiro, seja lá quem for. Não adianta, a mãe tem em si uma responsabilidade e uma disponibilidade que nenhum pai geralmente tem. Estamos falando em 2026 e isso continua fazendo parte, na maior parte das vezes, do feminino.
Meus filhos me ensinam diariamente que eu não posso parar. Até pelo fato de eu ser mãe provedora. Então, não posso parar. Não posso parar por mim, em primeiro lugar. Meus filhos me ensinam que eu preciso estar bem para ser uma melhor mãe. E para eu estar bem, eu preciso estar minimamente feliz comigo mesma. Para eu estar minimamente feliz comigo mesma, eu preciso estar compondo as coisas que me fazem feliz, que me fazem ter satisfação na vida. E para que eu possa refletir esse brilho perante os meus filhos, para com eles e com eles. Então, eles me ensinam, para além da resiliência, eu acho que o olhar generoso para a vida, o olhar empático para todo e qualquer tipo de pessoa que possa existir no mundo. Ser mãe atípica faz com que você tenha esse olhar cada vez maior, cada vez mais amplificado. A capacidade de você ouvir outras vozes, de perceber outros tipos de pessoas no mundo e entender que o mundo é diverso. Os meus filhos me fizeram entender que o mundo é diverso, ponto. E que ser diverso, ter diversidade, é normal, faz parte do processo evolutivo da humanidade. Não existe essa coisa de você querer tudo igual, tudo num padrão. Isso só atrapalha o nosso processo evolutivo individual e coletivo.
O fotógrafo Pino Gomes capturou imagens suas para este ensaio que são pura poesia visual. Se pudéssemos traduzir a energia e o magnetismo dessas fotos em som, qual seria a trilha sonora que dita o ritmo da sua vida e da sua alma neste exato momento? Essa pergunta é muito difícil de responder. Como é que eu traduzo meu momento, minha vida agora, em uma única canção? Isso é quase inglório, perguntar uma coisa como essa. Existem muitas canções que falam de mim, que me traduzem, muitas canções. Eu não conseguiria dizer qual é a canção que traduz esse exato momento da minha vida. Eu poderia dizer que é toda a trilha sonora que envolve o meu show Pretas do Brasil. Ali, naquele repertório, têm todas as canções que, se não fossem pelas minhas homenageadas, talvez eu quisesse cantar e gravar. Então, bora pegar o repertório de Pretas do Brasil e colocar em cada expressão e em cada uma dessas fotos, que vai caber muito bem.
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Foto: @pinogomes
Estilo: @rg_barros — in memoriam.
Beleza: @mucasouza
Cabelo: @myhairmycrown.brasil
Pós produção: @nangiard
Assistente de fotografia: @san_marx





