A reinvenção e a maturidade artística de Douglas Sampaio

Douglas Sampaio pelas lentes de Gabriel Trindade
Douglas Sampaio – Foto: Gabriel Trindade

Fechando o nosso mês de inauguração com chave de ouro, a Syve Brasil apresenta sua segunda capa de estreia. Após a força de Isabel Fillardis, que inaugurou a chegada da revista ao país há algumas semanas, conversamos com Douglas Sampaio.

Transitando com maestria para trás das câmeras, ele assume a direção e nos convida a debater sobre o tempo, a resiliência e a verdadeira essência da arte em constante movimento. Nesta entrevista exclusiva, o artista abre o coração sobre sua transição para a direção, a importância da construção coletiva e o manifesto que guia este seu novo e potente capítulo profissional.

SYVE: Douglas, você começou muito jovem diante das câmeras. Em que momento percebeu que precisava estar atrás delas, ditando o ritmo da narrativa como diretor?

Douglas Sampaio: Acho que esse movimento aconteceu de forma muito natural. Eu comecei muito jovem como ator e sempre fui apaixonado pelo set como um todo. Eu não olhava só para a minha cena, eu observava a câmera, a luz, a direção, a equipe, o ritmo, a forma como cada profissional contribuía para aquela história existir.

Com o tempo, percebi que eu também queria colaborar de uma forma mais ampla. Não deixo de ser ator, mas expando a minha relação com o audiovisual. A direção me trouxe esse lugar de construção coletiva, de organizar talentos, ideias e emoções para que uma história chegue com verdade ao público.

Hoje, eu vejo a direção como uma oportunidade de servir à narrativa e às pessoas envolvidas nela. Dirigir, para mim, é criar um ambiente onde todo mundo possa entregar o seu melhor.

SYVE: Como a sua experiência prévia como ator influencia a sua forma de dirigir e de se comunicar com o elenco? Você se considera um legítimo “diretor de atores”?

Douglas Sampaio: Influencia completamente. Por ter vindo da atuação, eu entendo a vulnerabilidade de quem está em cena. Sei o quanto o ator precisa se sentir seguro e bem conduzido para acessar uma verdade.

Eu gosto de dirigir a partir da confiança. Claro que o diretor precisa ter uma visão, mas eu acredito muito na escuta. Às vezes, uma troca com o ator, uma sugestão da fotografia, uma solução da arte ou da produção transforma a cena para melhor.

Então, sim, eu me considero um diretor de atores, mas também um diretor que acredita no coletivo. Meu papel é conduzir, provocar, proteger a essência da história e abrir espaço para que as pessoas brilhem junto com o projeto.

Douglas Sampaio – Foto: Gabriel Trindade

SYVE: Qual é a maior dor e a maior delícia de deter o controle criativo total de um projeto nos dias de hoje?

Douglas Sampaio: A maior dor é a responsabilidade. Quando você dirige, muitas decisões passam por você. Existe uma pressão natural de proteger a história, cuidar da equipe, respeitar o orçamento, o tempo e, ao mesmo tempo, manter a qualidade artística.

Mas a maior delícia é ver uma ideia ganhar vida através de muitas mãos. Uma cena não nasce só do diretor. Ela nasce do elenco, da fotografia, da arte, do som, da produção, da montagem. Quando todo mundo coloca energia na mesma direção, acontece algo muito bonito.

Eu tenho aprendido que controle criativo não é controlar tudo sozinho, mas sim conduzir, confiar nas pessoas certas e criar uma unidade em torno da obra.

SYVE: O mercado do entretenimento no Brasil é cíclico e muitas vezes implacável. Como você define a sua trajetória de resiliência até este momento de assinatura de capa da Syve?

Douglas Sampaio: Eu defino como uma trajetória de movimento, aprendizado e reconstrução. Comecei cedo, vivi muitas fases, errei, acertei, amadureci e continuei criando. Acho que a resiliência vem muito dessa capacidade de não parar, de aprender com cada ciclo e transformar experiência em trabalho.

Mas eu não vejo essa caminhada como uma história só minha. Eu sou resultado de muitos encontros: diretores, atores, produtores, equipes, amigos, pessoas que acreditaram em mim e pessoas que eu também pude ajudar de alguma forma.

Hoje, esse momento representa maturidade.

SYVE: Se o Douglas diretor de hoje pudesse filmar um documentário sobre a vida do Douglas de dez anos atrás, qual seria o tom do filme e qual conselho você daria para o seu protagonista?

Douglas Sampaio: Seria um documentário com muita energia, verdade e afeto. Eu olharia para aquele Douglas com carinho. Era um jovem intenso, cheio de vontade, querendo viver, aprender, acertar e ocupar o seu espaço.

O conselho que eu daria seria: “continua com essa luz, mas aprende a dividir melhor o caminho”. Porque a vida vai mostrando que ninguém constrói nada grande sozinho. Talento é importante, mas escuta, equipe, generosidade e relação também são fundamentais.

Eu diria para ele confiar no tempo, cuidar da mente, valorizar quem está junto e entender que amadurecer não é perder a essência. É organizar melhor a própria força.

SYVE: O que a maturidade trouxe para a sua arte que a urgência e o imediatismo da juventude não permitiam enxergar?

Douglas Sampaio: A maturidade trouxe escuta. Quando a gente é mais jovem, às vezes quer responder rápido, provar rápido, acontecer rápido. Hoje eu entendo melhor o valor do processo.

Eu continuo sendo uma pessoa enérgica, intensa e criativa, mas hoje essa energia está mais direcionada. Aprendi que dirigir também é observar, esperar o tempo certo, ouvir a equipe, o ator e entender que uma boa cena muitas vezes nasce da soma de muitas percepções.

A maturidade me ensinou que arte não é só expressão individual. A arte também é encontro. É troca. É criar um espaço onde outras pessoas possam se revelar.

Douglas Sampaio – Foto: Gabriel Trindade
Douglas Sampaio – Foto: Gabriel Trindade

SYVE: Qual é a história que você, como cineasta e diretor, tem mais urgência de contar para o público brasileiro hoje?

Douglas Sampaio: Tenho urgência de contar histórias brasileiras com alma, verdade e identificação popular. Histórias que falem de gente real, de relações, sonhos, famílias, conflitos, recomeços e oportunidades.

Eu gosto muito desse lugar onde o popular encontra qualidade. Acredito que uma história pode ser acessível, emocionante e, ao mesmo tempo, bem dirigida, bem atuada e bem produzida.

Também tenho muita vontade de abrir portas. O Brasil tem atores, técnicos, roteiristas, diretores e produtores muito talentosos que precisam de oportunidade. Então, mais do que contar uma história só minha, quero participar de um movimento que revele pessoas e fortaleça o nosso mercado.

SYVE: Como você enxerga o atual cenário do cinema e do audiovisual independente no Brasil? Onde estão as maiores oportunidades de inovação?

Douglas Sampaio – Foto: Gabriel Trindade

Douglas Sampaio: Eu enxergo com muito entusiasmo. É um cenário desafiador, claro, mas extremamente criativo. O audiovisual independente brasileiro tem uma força muito bonita porque nasce muitas vezes da colaboração. As pessoas se juntam, inventam soluções, emprestam talento, tempo, energia e fazem acontecer.

Acho que as maiores oportunidades estão nos novos formatos, nas plataformas digitais, nas novelas verticais, nas séries e em tudo que aproxima o público da produção nacional. Hoje existem várias telas possíveis, e isso abre espaço para novos talentos e novas formas de contar histórias.

Para mim, inovação não é só tecnologia. Inovação também é criar acesso, formar equipe, descobrir atores, produzir com inteligência e fazer o público se reconhecer na tela.

SYVE: Para fechar: qual é o seu manifesto pessoal para os próximos anos da sua consolidada carreira?

Douglas Sampaio: Meu manifesto é criar com verdade, alegria e coletividade. Quero seguir crescendo como ator, diretor e realizador, mas também quero crescer junto com as pessoas que caminham comigo.

Eu gosto de ajudar pessoas, de criar oportunidades, de ver talentos encontrando espaço. Acredito muito no set como um lugar de troca, aprendizado e construção. Quando uma equipe está alinhada, quando o elenco se sente seguro e quando todo mundo entende a importância da história, o resultado fica mais forte.

Para os próximos anos, eu quero dirigir histórias que emocionem, formar novos artistas, fortalecer o audiovisual e seguir me reinventando.

A reinvenção, para mim, não é apagar o passado. É usar tudo que eu vivi para construir algo maior, não só para mim, mas para todos que também acreditam no poder de contar histórias.

Edição digital disponível em MÉDIA e ALTA resolução. Garanta o seu exemplar colecionável em PDF.

Fotos: Gabriel Trindade – @gabrieltrindade
Beleza: Camila Gentile – @loiraryca

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