
Em sua segunda capa de estreia, a Syve Brasil conversa com o artista sobre direção, resiliência, maturidade e os novos caminhos da arte
Fechando o nosso mês de inauguração com chave de ouro, a Syve Brasil apresenta sua segunda capa de estreia. Depois da força de Isabel Fillardis, que inaugurou a chegada da revista ao país há algumas semanas, conversamos com Douglas Sampaio.
Desta vez, o artista aparece em uma nova fase da carreira. Transitanto com maestria para trás das câmeras, ele assume a direção e nos convida a refletir sobre o tempo, a resiliência e a verdadeira essência da arte em constante movimento.
Nesta entrevista exclusiva, Douglas abre o coração sobre sua transição para a direção. Além disso, fala sobre a importância da construção coletiva e revela o manifesto que guia este novo e potente capítulo profissional.
Para o artista, dirigir representa também ampliar sua relação com o audiovisual. Ao mesmo tempo, a experiência como ator permite que ele compreenda de perto os desafios enfrentados por quem está diante das câmeras.
Confira a entrevista:
SYVE: Douglas, você começou muito jovem diante das câmeras. Em que momento percebeu que precisava estar atrás delas, ditando o ritmo da narrativa como diretor?
Douglas Sampaio: Acho que esse movimento aconteceu de forma muito natural. Eu comecei muito jovem como ator e sempre fui apaixonado pelo set como um todo. Desde o início, eu não olhava só para a minha cena. Eu observava a câmera, a luz, a direção, a equipe, o ritmo e a forma como cada profissional contribuía para aquela história existir.
Com o tempo, percebi que também queria colaborar de uma forma mais ampla. Não deixo de ser ator, mas expando a minha relação com o audiovisual. Nesse sentido, a direção me trouxe esse lugar de construção coletiva, de organizar talentos, ideias e emoções para que uma história chegue com verdade ao público.
Hoje, eu vejo a direção como uma oportunidade de servir à narrativa e às pessoas envolvidas nela. Dirigir, para mim, é criar um ambiente onde todo mundo possa entregar o seu melhor.
SYVE: Como a sua experiência prévia como ator influencia a sua forma de dirigir e de se comunicar com o elenco? Você se considera um legítimo “diretor de atores”?
Douglas Sampaio: Influencia completamente. Por ter vindo da atuação, eu entendo a vulnerabilidade de quem está em cena. Sei o quanto o ator precisa se sentir seguro e bem conduzido para acessar uma verdade.
Eu gosto de dirigir a partir da confiança. Claro que o diretor precisa ter uma visão, mas eu acredito muito na escuta. Às vezes, uma troca com o ator, uma sugestão da fotografia, uma solução da arte ou da produção transforma a cena para melhor.
Então, sim, eu me considero um diretor de atores, mas também um diretor que acredita no coletivo. Meu papel é conduzir, provocar, proteger a essência da história e abrir espaço para que as pessoas brilhem junto com o projeto.

SYVE: Qual é a maior dor e a maior delícia de deter o controle criativo total de um projeto nos dias de hoje?
Douglas Sampaio: A maior dor é a responsabilidade. Quando você dirige, muitas decisões passam por você. Existe uma pressão natural de proteger a história, cuidar da equipe, respeitar o orçamento e o tempo. Ao mesmo tempo, é preciso manter a qualidade artística.
Por outro lado, a maior delícia é ver uma ideia ganhar vida através de muitas mãos. Uma cena não nasce só do diretor. Ela nasce também do elenco, da fotografia, da arte, do som, da produção e da montagem. Quando todo mundo coloca energia na mesma direção, acontece algo muito bonito.
Eu tenho aprendido que controle criativo não é controlar tudo sozinho. Na verdade, é conduzir, confiar nas pessoas certas e criar uma unidade em torno da obra.
SYVE: O mercado do entretenimento no Brasil é cíclico e muitas vezes implacável. Como você define a sua trajetória de resiliência até este momento de assinatura de capa da Syve?
Douglas Sampaio: Eu defino como uma trajetória de movimento, aprendizado e reconstrução. Comecei cedo, vivi muitas fases, errei, acertei, amadureci e continuei criando. Acho que, nesse processo, a resiliência vem muito dessa capacidade de não parar, aprender com cada ciclo e transformar experiência em trabalho.
Mas eu não vejo essa caminhada como uma história só minha. Eu sou resultado de muitos encontros: diretores, atores, produtores, equipes, amigos, pessoas que acreditaram em mim e pessoas que eu também pude ajudar de alguma forma.
Hoje, esse momento representa maturidade.
SYVE: Se o Douglas diretor de hoje pudesse filmar um documentário sobre a vida do Douglas de dez anos atrás, qual seria o tom do filme e qual conselho você daria para o seu protagonista?
Douglas Sampaio: Seria um documentário com muita energia, verdade e afeto. Eu olharia para aquele Douglas com carinho. Era um jovem intenso, cheio de vontade, querendo viver, aprender, acertar e ocupar o seu espaço.
O conselho que eu daria seria: “continua com essa luz, mas aprende a dividir melhor o caminho”. Porque, com o tempo, a vida vai mostrando que ninguém constrói nada grande sozinho.
Talento é importante, mas escuta, equipe, generosidade e relação também são fundamentais.
Eu diria para ele, ainda, confiar no tempo, cuidar da mente, valorizar quem está junto e entender que amadurecer não é perder a essência. É organizar melhor a própria força.
SYVE: O que a maturidade trouxe para a sua arte que a urgência e o imediatismo da juventude não permitiam enxergar?
Douglas Sampaio: A maturidade trouxe escuta. Quando a gente é mais jovem, às vezes quer responder rápido, provar rápido, acontecer rápido. Hoje, eu entendo melhor o valor do processo.
Eu continuo sendo uma pessoa enérgica, intensa e criativa. No entanto, hoje essa energia está mais direcionada. Aprendi que dirigir também é observar, esperar o tempo certo, ouvir a equipe, o ator e entender que uma boa cena muitas vezes nasce da soma de muitas percepções.
Além disso, a maturidade me ensinou que arte não é só expressão individual. A arte também é encontro. É troca. É criar um espaço onde outras pessoas possam se revelar.


SYVE: Qual é a história que você, como cineasta e diretor, tem mais urgência de contar para o público brasileiro hoje?
Douglas Sampaio: Tenho urgência de contar histórias brasileiras com alma, verdade e identificação popular. Histórias que falem de gente real, de relações, sonhos, famílias, conflitos, recomeços e oportunidades.
Eu gosto muito desse lugar onde o popular encontra qualidade. Acredito que uma história pode ser acessível, emocionante e, ao mesmo tempo, bem dirigida, bem atuada e bem produzida.
Além disso, tenho muita vontade de abrir portas. O Brasil tem atores, técnicos, roteiristas, diretores e produtores muito talentosos que precisam de oportunidade.
Por isso, mais do que contar uma história só minha, quero participar de um movimento que revele pessoas e fortaleça o nosso mercado.
SYVE: Como você enxerga o atual cenário do cinema e do audiovisual independente no Brasil? Onde estão as maiores oportunidades de inovação?

Douglas Sampaio: Eu enxergo com muito entusiasmo. É um cenário desafiador, claro, mas extremamente criativo. Nesse contexto, o audiovisual independente brasileiro tem uma força muito bonita porque nasce muitas vezes da colaboração.
As pessoas se juntam, inventam soluções, emprestam talento, tempo, energia e fazem acontecer. Ao mesmo tempo, acho que as maiores oportunidades estão nos novos formatos, nas plataformas digitais, nas novelas verticais, nas séries e em tudo que aproxima o público da produção nacional.
Hoje, existem várias telas possíveis. Com isso, surgem novos espaços para talentos e novas formas de contar histórias.
Para mim, inovação não é só tecnologia. Da mesma forma, inovação também é criar acesso, formar equipe, descobrir atores, produzir com inteligência e fazer o público se reconhecer na tela.
Para mim, inovação não é só tecnologia. Inovação também é criar acesso, formar equipe, descobrir atores, produzir com inteligência e fazer o público se reconhecer na tela.
SYVE: Para fechar: qual é o seu manifesto pessoal para os próximos anos da sua consolidada carreira?
Douglas Sampaio: Meu manifesto é criar com verdade, alegria e coletividade. Quero seguir crescendo como ator, diretor e realizador, mas também quero crescer junto com as pessoas que caminham comigo.
Eu gosto de ajudar pessoas, de criar oportunidades e de ver talentos encontrando espaço. Acredito muito no set como um lugar de troca, aprendizado e construção.
Quando uma equipe está alinhada, quando o elenco se sente seguro e quando todo mundo entende a importância da história, o resultado fica mais forte.
Para os próximos anos, eu quero dirigir histórias que emocionem, formar novos artistas, fortalecer o audiovisual e seguir me reinventando.
A reinvenção, para mim, não é apagar o passado. É usar tudo que eu vivi para construir algo maior, não só para mim, mas para todos que também acreditam no poder de contar histórias.
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Fotos: Gabriel Trindade – @gabrieltrindade
Beleza: Camila Gentile – @loiraryca






