No Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, profissionais da comunicação refletem sobre resistência, representatividade e os caminhos para transformar o jornalismo brasileiro
Neste 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela, mulheres negras que fazem a comunicação brasileira diariamente nos lembram, mais do que nunca, do verdadeiro sentido de existir, resistir e pautar o país.
Mais do que ocupar telas e páginas, essas profissionais ajudam a construir novas perspectivas sobre a sociedade brasileira. O jornalismo feito por mãos e mentes negras não é apenas crônica do cotidiano. Ao contrário, também é escolha política, afeto, ancestralidade e transformação.
Nesse contexto, quando perguntadas pelo colunista Daniel Nascimento sobre o que as move ou o que significa exercer a profissão, as respostas dessas profissionais desenham um retrato profundo da imprensa que temos. Ao mesmo tempo, apontam para aquela que queremos construir.
Para a apresentadora e jornalista Alinne Prado, com passagens pela Globo e pela RedeTV!, o ofício representa uma escolha diária de ponte com a humanidade:
“No meio da correria, que é muita, o jornalismo continua sendo a ponte que escolhi construir entre informação, humanidade e transformação. Enquanto houver histórias capazes de despertar consciência e esperança, eu terei motivo para seguir com alegria.”
Além disso, Alinne destaca uma dimensão humana da profissão que ultrapassa a simples transmissão de informações. Para ela, contar histórias também significa criar possibilidades de reflexão e mudança.
Referências que abrem caminhos
A força das referências, por sua vez, alimenta o presente e também ajuda a construir o futuro. Nesse sentido, Letícia Vidica, repórter da TV Globo nos programas Encontro, É de Casa e Mais Você, reverencia o legado de Gloria Maria:
“Sem dúvidas, Gloria Maria é e sempre será uma grande referência pra mim ou pra qualquer mulher preta que esteja atuando hoje na comunicação. Ela foi não só uma gigante pelo fato de ser uma profissional competentíssima, mas pelo fato dela ter lutado as nossas lutas e aberto caminho só ocupando esses espaços e mostrando que sim o preto pode estar onde quiser e se fazer ser respeitado pela sua capacidade, pela sua competência e pelo seu trabalho. Gloria Maria é a nossa eterna ancestral, quase uma Orixá e é aquela que vai estar sempre conduzindo a gente de onde ela estiver.”
Da mesma forma, a jornalista Li Lacerda, com passagens pela Vogue e Harper’s Bazaar, evoca a intelectual Lélia Gonzalez como uma referência fundamental em sua formação:
“A intelectual Lélia Gonzalez é a grande referência na formação da minha consciência racial. Ela nos faz entender que não se pode falar do feminismo sem o recorte de raça, já que as dificuldades enfrentadas pela condição de ser mulher atravessa de forma mais cruel quando se trata de mulheres negras. Sua obra, apesar da importância, ainda não teve o merecido reconhecimento.”
Resistência no jornalismo
Ao mesmo tempo, estar na linha de frente também exige resiliência diária. É o que resume Basília Rodrigues, jornalista política com passagem pela CNN e atualmente no SBT News, ao definir sua jornada:
“Ser uma mulher negra no Jornalismo exige não desistir de si, provar todos os dias que é excelente, se proteger dos racistas e dos que fingem ser antirracistas.”
Essa percepção também aparece na fala de Katharine Alves, jornalista com passagem pelo SBT e atualmente repórter da Leo Dias TV:
“Resistência. Grandes nomes como Gloria Maria e Maju Coutinho me mostraram que o caminho pode, sim, ser trilhado. Mas para estar nele é preciso continuar resistindo. Muitas barreiras foram quebradas ao longo da história, mas a dificuldade para a mulher preta em alguns aspectos ainda parece ser maior. Essa luta é algo que só quem vive na pele (literalmente) sente.”
Diante desse cenário, a permanência nesses espaços também se transforma em uma forma de resistência. Por isso, a presença dessas profissionais ganha significado que ultrapassa suas próprias trajetórias.
Jornalismo como transformação social
O compromisso com o impacto social é o motor apontado por Cynthia Martins, jornalista e âncora da Band:
“O que me mantém viva nessa profissão fascinante é acreditar profundamente que ela pode mudar realidades, percepções, opiniões, mundos… Tem muita gente nos vendo, nos olhando, que aprendem com a nossa profissão e nos têm como referência. É uma responsabilidade imensa e que hoje nos dá a sorte de poder exercer o jornalismo podendo ter trocas mais diretas com quem nos acompanha. Poder trazer pautas sociais e sobre direitos humanos é o que mais me preenche e me faz seguir em frente. Jornalismo tem de ser pras pessoas.”
Para além da transformação social, existe também uma conexão profunda com a ancestralidade. É justamente esse caminho que aparece na fala da jornalista Lica Oliveira, ex-apresentadora do Esporte Espetacular, da Globo:
“Sou a soma das minhas mais velhas e reflexo, fluxo e travessia das minhas contemporâneas. A força, a coragem, o medo, o amor, a resistência, a beleza, a fé, o sagrado, a inteligência, o cuidado, tudo em nós. Neste 25 de julho eu reverencio a minha mãe, minha ancestral, meu norte e, rendendo homenagens à maravilhosa Zezé Motta, neste ano de celebração pelos 50 anos do filme Xica da Silva. Salve elas!”
O futuro da imprensa
Olhando para o horizonte, a jornalista Janaína Nunes, com passagens pela Record e atualmente no Melhor da Tarde, da Band, e na Leo Dias TV, reflete sobre o longo caminho percorrido e aquilo que ainda falta alcançar:
“Demos passos largos comparado a 20 ou 25 anos atrás, quando só víamos nomes como Glória Maria. Mas a imprensa ainda não reflete a totalidade da nossa população. O espaço é pequeno, mas estamos no caminho. Vejo meu filho estudando jornalismo hoje e sei que daqui a alguns anos o cenário será muito diferente porque a cobrança e nossa presença são maiores.”
Nesse processo de transformação, a representatividade também passa pela possibilidade de inspirar quem ainda está chegando. É o que destaca a jornalista da TV Globo Ana Paula Santos, que integrou a turma pioneira do programa Profissão Repórter.
Ao falar sobre sua trajetória de 23 anos, ela ressalta a importância de ocupar espaços de destaque e mostrar que outras meninas também podem sonhar com eles:
“Eu sei a importância que é estar à frente da apresentação e também da reportagem na maior emissora do meu país nesses 23 anos de carreira. Eu levo profissionalismo e mostro que, sim, é possível realizar os sonhos das meninas que ainda não são vistas com o respeito que deveriam por causa da classe social.”
Ancestralidade e futuro
Assim, neste Dia de Tereza de Benguela, ouvir essas mulheres é também compreender a dimensão de cada espaço conquistado. Afinal, cada presença importa quando se fala de representatividade, comunicação e transformação social.
Ao longo dos anos, jornalistas negras abriram caminhos, enfrentaram barreiras e ampliaram a presença feminina negra nos diferentes espaços da comunicação brasileira. Ainda assim, a busca por igualdade está longe de terminar.
Por isso, cada conquista também representa um convite para as próximas gerações. Cada espaço ocupado por essas profissionais é um tijolo a menos na estrutura do racismo e, ao mesmo tempo, uma porta aberta para que outras mulheres possam chegar.
No fim, ocupar, permanecer e transformar são movimentos que caminham juntos. E, neste 25 de julho, essas vozes lembram que contar histórias também pode ser uma forma de preservar a ancestralidade, reivindicar o presente e construir o futuro.






