Luiza Rosa questionou a desigualdade no acesso às oportunidades e a cultura do “assina primeiro, qualifica depois” no mercado audiovisual brasileiro.
A escalação do influenciador digital Juliano Floss para Paraíso Perdido, próxima novela do Globoplay, reacendeu um debate antigo, mas sempre latente, nos bastidores da dramaturgia brasileira. A atriz Luiza Rosa, intérprete de Kellen em Três Graças, usou suas redes sociais para manifestar um contundente desabafo sobre a disparidade no acesso a oportunidades profissionais dentro do setor audiovisual do país.
Sem mencionar nominalmente o criador de conteúdo, Luiza Rosa direcionou sua crítica à lógica de mercado que prioriza o engajamento digital em detrimento da formação técnica e do histórico de testes de atores profissionais. A crítica tocou em um ponto sensível para milhares de trabalhadores das artes cênicas que lutam por espaço em grandes produções nacionais.
“Ninguém está errado em agarrar oportunidades. Tá tudo bem! Assina primeiro, qualifica depois. Mas é revoltante perceber que a falta de oportunidade que a maioria tem, vem em excesso para um ou outro”, desabafou a atriz em suas plataformas digitais.
O posicionamento da artista foi amplamente compartilhado e ecoou entre colegas de profissão. Luiza fez questão de pontuar que o cerne da questão não reside no indivíduo que aceita o convite, mas sim na estrutura executiva que distribui os papéis relevantes baseando-se em métricas de redes sociais, gerando um cenário de profunda desigualdade competitiva.
O fenômeno dos seguidores na TV
Juliano Floss, conhecido inicialmente por suas coreografias e vídeos de dança que acumulam milhões de visualizações no TikTok e Instagram, consolidou sua presença na televisão aberta ao integrar o elenco do quadro Dança dos Famosos, no programa Domingão com Huck. Sua transição para o núcleo de atuação da emissora carioca reflete uma estratégia comercial contemporânea de aproximar o público infantojuvenil e a audiência conectada da TV tradicional.
No entanto, essa política de escalação tem sofrido duras críticas de sindicatos e de profissionais veteranos. Críticos apontam que o esvaziamento dos critérios técnicos para a concessão de personagens de destaque prejudica a sustentabilidade da carreira de ator no Brasil, desestimulando a busca por formação acadêmica em artes cênicas.
Histórico de tensões e precedentes
O episódio envolvendo Juliano Floss e Luiza Rosa não é isolado, mas parte de uma cronologia recente de atritos entre a classe artística e as decisões de escalação das emissoras e plataformas de streaming. Casos anteriores parecidos provocaram debates intensos e até intervenções do Sated (Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões).
A escalação da influenciadora Jade Picon para o papel de Chiara na novela Travessia (2022), de Glória Perez, bem como a presença de Rafa Kalimann em Família é Tudo (2024), são os exemplos mais emblemáticos dessa nova era. Em ambos os casos, a concessão de autorizações especiais de trabalho para quem não possui o registro profissional definitivo (DRT) gerou manifestações públicas de descontentamento de atores renomados.
Até o momento da publicação desta matéria, a TV Globo e os representantes de Juliano Floss não emitiram notas oficiais a respeito dos comentários gerados nas redes sociais. O espaço permanece aberto para manifestações. Enquanto isso, o debate sobre os limites entre o alcance digital e o mérito artístico continua dividindo opiniões entre o público e os profissionais do setor.





